TRATAMENTO   BIOPROGRESSIVO NAS DENTIÇÕES DECÍDUAS E MISTA


MIGUEL NEIL BENVENGA

 

    A maioria dos ortodontistas faz grandes objeções ao tratamento preventivo/interceptador e não acredita nas vantagens e recompensas que podem ser obtidas com uma intervenção precoce. Os principais argumentos se referem à colaboração dos pacientes e seus pais e à demora dos tratamentos que, em muitos casos, são feitos em duas fases.

    A questão básica para dirimir essas dúvidas e objeções está no diagnóstico seguro, na previsão de crescimento facial e no domínio da aparatologia para conseguir resultados duradouros.

    RICKETTS1 define 4 objetivos para essa fase terapêutica, a saber: 

1. Resolver os problemas funcionais, isto é, eliminar qualquer interferência que perturbe o crescimento, a saúde e a função do complexo da articulação temporomandibular.

2. Resolver a discrepância de comprimento das arcadas dentárias, cuja finalidade é evitar correções com extrações dentárias. Segundo o autor, 75% das classes I tratadas precocemente não necessitarão de extrações.

3. Correção de problemas verticais. Um princípio fundamental é tratar a sobremordida antes da protrusão (overjet ou ressalto). A intervenção em tenra idade nas sobremordidas profundas e nas mordidas abertas terá grande vantagem e, sem dúvida, diminuirá o tempo total da correção.

4. Correção do overjet. Aqui, o trabalho do especialista tem o propósito de criar um bom equilíbrio maxilomandibular com uma relação final de classe I, utilizando combinação ortopédica e movimentação dentária.

    Está provado que o tratamento preventivo/interceptador bem sucedido diminui, efetivamente, a necessidade de várias correções cirúrgicas para pacientes tratados na idade adulta.

    Para que os 4 objetivos do tratamento precoce sejam alcançados é imperativo que o ortodontista tenha um conhecimento abrangente do crescimento facial de seus pacientes e isso só é possível se souber interpretar, acertadamente, os princípios do crescimento arqueal da mandíbula descritos por RICKETTS2, em 1972.

    O crescimento arqueal explica como a mandíbula cresce e como o crescimento desse osso se encaixa e se adapta ao crescimento geral da face e do crânio.

    A descoberta do crescimento arqueal da mandíbula abriu caminho à criação do VTO de longo prazo, cuja evolução fez surgir o VTG3.

    Os conhecimentos atuais oferecem inúmeras razões para iniciarmos as correções ortopédicas o mais cedo possível para muitos pacientes, por volta dos 5 ou 6 anos de idade e, mais cedo ainda para os portadores de fissuras palatinas.

    As razões mais importantes para o início do tratamento precoce estão relacionadas a seguir, a fim de que o especialista tenha a possibilidade de avaliar, também, o significado biológico desta importante fase de crescimento e desenvolvimento das crianças4.

    O tratamento precoce tem as seguintes vantagens:

1.  Impede que a maloclusão se agrave.

2.  Orienta o crescimento facial na direção desejada, permitindo ao ortodontista aproveitar seus efeitos benéficos e, na medida do possível, neutralizar os adversos. Com o atual VTG - metas finais dos objetivos visuais - essa conduta é uma realidade.

3.  A previsão de crescimento facial simplifica o diagnóstico biointegrado e aumenta a segurança do especialista ao longo de toda a correção.

4.  Muda a fisiologia oral.

5.  Aumenta as possibilidades de tratamento sem extrações.

6.  Permite a utilização máxima dos dentes decíduos na ancoragem (arcos utilidade e ancoragem extra-oral).

7.  Possibilita o efeito ortopédico na face do paciente enquanto as suturas estão em atividade de ajuste. 

8.  Guia a erupção dos dentes permanentes, mantendo o espaço onde for necessário.

9.  Corrige os giroversões dos dentes na erupção para eliminar a possibilidade de recidiva a partir do ligamento periodontal.

10. Utiliza todos os meios de ancoragem (crescimento facial, musculatura e osso cortical).

11. Elimina os padrões de hábitos viciosos (impulsão da língua, sucção dos dedos etc)

12. Evita a fratura dos dentes protruídos.

13. Impede a impactação dos caninos por meio da expansão das arcadas dentárias.

14. Melhora a aparência e o comportamento da criança, aumentando sua auto-estima e a sociabilidade.

15. Trata a maior parte do problema ortodôntico no período em que a criança é mais cooperadora, ao contrário da adolescência.

16. Propicia o desenvolvimento de uma fonação correta.

17. Reduz o tempo total de tratamento na dentição permanente com as vantagens inerentes, pois os aparelhos ficarão sobre os dentes por um período de tempo menor.

18. Permite o estabelecimento de honorários adequados, tomando-se por base o tratamento completo e com uma visão realista sobre sua duração.

19. A rotação da mandíbula é mais fácil de ser conseguida nos pacientes jovens, e o tratamento precoce possibilita a adaptação fisiológica durante o crescimento facial.


20. Enucleação precoce dos dentes do siso, quando suas posições e espaços disponíveis forem conhecidos por meio do VTG.


21. Modifica os fatores funcionais como constrição labial, postura da língua e deglutição anormal, eliminando os problemas respiratórios pelo aumento dos espaços das vias aéreas nasais.

22. Protege a integridade da articulação temporomandibular, corrigindo as mordidas cruzadas, o bruxismo, as prematuridades dentárias e o deslocamento da mandíbula.

23. Trata precocemente as classes III de Angle.

24. A espessura da lâmina dura do alvéolo dentário muda à medida que aumenta a idade do paciente, tornando-se mais cortical, com conseqüente diminuição do suprimento sangüineo. Esta é mais uma vantagem do tratamento ortodôntico  precoce.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


1. RICKETTS, R.M.: Bioprogressive Therapy, RMO, 1979.

2. RICKETTS, R.M.: A principle of arcial growth of the mandibule. Angle Orthod, 42: 368-386, October, 1972. 

3. RICKETTS, R.M.: On Early Treatment - Interview, J. Clin Orthod, 13:23-38, 115-127, 181-199,Jan., Feb., Mar., 1979. 

4. RICKETTS, R.M.: Progressive Clinical Cephalometrics, Am Inst for Biopro Educ, Scottsdale, AZ, 1995.

5. RICKETTS, R.M.: Orthodontic Treatment in Growing Patient, Volumes 1,2,3,4 Am Inst for Biopro Educ, Scottsdale,     

    AZ.,  1998.


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