OS VINTE E DOIS ERROS MAIS COMUNS NO USO DA TRAÇÃO CERVICAL DE KLÖEHN, SEGUNDO RICKETTS


MIGUEL NEIL BENVENGA


1. Não pense na tração cervical de Klöehn como um aparelho para mover dentes. Muitos o consideram um dispositivo que apenas movimenta os dentes. O correto é considerá-lo um aparelho ortopédico, uma vez que ele tem a capacidade de movimentar o complexo maxilar nos três planos do espaço, girando para trás, para baixo e para fora o assoalho nasal, podendo, ainda, abrir as vias aéreas.

2. Não solde o tubo redondo para o arco interno do extra-oral (.045") virado para oclusal. Muitos ortodontistas colocam o tubo para oclusal a fim de facilitar a colocação do arco facial. O stop soldado é ineficiente. O tubo virado para oclusal requer uma grande elevação do arco externo para prevenir a inclinação dos molares. O tubo para oclusal provoca uma extrusão desnecessária dos molares!

3. Não use um arco facial rígido e estreito, como os encontrados no comércio, fabricados com material pesado para resistir às quebras. Esse tipo de arco foi copiado de técnicas extracionistas e comprime as regiões posteriores da boca. A rigidez do aparelho, aliada aos conceitos anti-expansão das arcadas dentárias, causam os erros comuns no aparecimento de mordidas cruzadas. A flexibilidade do arco facial promove uma expansão natural e é mais confortável, facilitando a cooperação do paciente.

4. Não faça stops soldados. Coloque o arco interno bem junto aos dentes. O arco interno serve como um escudo para o complexo muscular da região póstero-angular da boca. Faça uma dobra em baioneta para fora do stop, para que o aparelho funcione como um pára-choque lateral, liberando a tensão do músculo orbicular e promovendo um alargamento natural da arcada.

5. Não distalize os molares sem girá-los. O arco interno do arco facial é ajustado ao molar afim de girá-lo levemente para palatino a cada consulta, até incliná-lo em uma colocação bem adaptada ao tubo. Essa manobra também ajuda a girar o molar inferior. O objetivo final é girar os molares superiores em 15º e, os inferiores, em 12º , aproxidamente.
6. Não mantenha a largura original da arcada. Muitas classes II severas são, na realidade, mordidas cruzadas no plano frontal, mas não mostram isso nos modelos de gesso porque a arcada superior se articula com a arcada inferior estreita. A expansão é necessária para prevenir as mordidas cruzadas, sempre com o cuidado de expandir mais o arco superior que o inferior. A expansão dos primeiros molares superiores livra os segundo molares do risco de ficarem cruzados.

7. Não coloque brackets e arcos nos dentes superiores através da linha mediana, nem uma placa para controlar os incisivos. A expansão, a rotação e a distalização dos molares provocam o aumento do comprimento da arcada superior, alargando-a como um todo. Essa ação de abertura da sutura maxilar mediana é impedida com a colocação de um arco contínuo. A colocação de arcos nos dentes superiores deve ser evitada, até que se consiga o efeito ortopédico desejado.

8. Não coloque placas de mordida com o aparelho de tração cervical. Os planos de mordida manterão os molares antagonistas separados durante a ação do Klöehn, o que provocará a extrusão deles. A extrusão dos molares levará a uma rotação excessiva da mandíbula (rotação negativa), daí surgindo a reclamação freqüente do aparecimento do "efeito cunha".
9. Não deixe o arco interno do arco facial longe dos dentes anteriores se estes estiverem espaçados. O arco interno somente deverá ficar afastado dos incisivos nos casos em que o comprimento da arcada estiver diminuido. Assim que os molares forem distalizados 1 ou 2 milímetros, o arco interno com seu revestimento de plástico deve se apoiar nos incisivos, passando a auxiliar a movimentação da maxila como uma unidade, evitando, assim, o aparecimento de espaços entre os dentes.
10. Não recomende o uso da tração cervical por mais de 14 horas diárias. O uso excessivo anula a ação dos músculos, provoca a rotação negativa da mandíbula, comprime os côndilos, inibe a recuperação muscular e a resposta do crescimento facial.
11. Não empregue uma força demasiada. Força em demasia provoca uma resposta dolorosa e o paciente não usará a ancoragem de Klöehn. A força excessiva também anula a ação muscular e pode, teoricamente, provocar esclerose nas suturas ósseas, tornando mais lenta a ação ortopédica.
Para a fase preventiva = dentição decídua - 350 gramas
Para a fase interceptadora = dentição mista - 500 gramas
Para a fase corretiva = adolescente - 750 gramas
12. Não limite o tratamento à tração cervical somente. As mordidas abertas podem ser tratadas somente com a ancoragem cervical, por um tempo determinado. As sobremordidas profundas podem necessitar de intrusão dos incisivos com o objetivo de permitir que o maxilar gire. Nas sobremordidas profundas, o uso do Klöehn deve ser acompanhado por um arco utilidade inferior, desde o início do tratamento interceptador. A verticalização dos molares inferiores também aumenta a distância que o arco superior e a maxila precisam ser distalizados para estabelecer uma relação de classe I.

13. Não prossiga usando o aparelho cervical sozinho quando os dentes anteriores superiores estiverem tocando os incisivos inferiores. As vezes, é preciso parar o tratamento e colocar um arco utilidade superior em um paciente com "sorriso gengival" e sobremordida profunda alveolar, quando a altura dos dentes inferiores for normal.
14. Não use a ancoragem cervical em todos os casos classe II somente porque são classe II. Os casos de pacientes com perfil reto são melhor tratados com elásticos de classe II e, ainda, sobretratados liberalmente. As previsões de crescimento facial de longo prazo poderão nos aconselhar para indicar extrações somente na maxila ou também na mandíbula. Seja seletivo na escolha dos candidatos ao tratamento ortodôntico ou ortopédico. As forças ortodônticas principiam com 150 gramas e diminuídas gradativamente.
15. Não remova a aplicação da ancoragem cervical imediatamente após conseguir uma relação de classe I. A regra geral é usá-la como aparelho de contenção, como uma seqüência de uso que se inicia com uma noite sim e outra não, até uma noite sim e três não, pelo mesmo período que levamos para corrigir a relação de classe II, ou seja, entre 9 e 12 meses. Isto prevenirá a recidiva sutural e controlará as forças que produziram originalmente a classe II.
16. Não deixe de empregar integralmente a tração cervical até que seja obtida uma sobrecorreção em classe I. Os tecidos se distendem e os ossos jovens se dobram. O sobretratamento é a regra.
17. Não use o Klöehn enquanto não for reduzido ou controlado um hábito de sucção do polegar. A sucção do polegar opõe-se à força ortopédica e impede a junção funcional da boca. A junção anterior estimula os músculos faciais e ajuda a conter a mandíbula, evitando sua rotação negativa. Promova uma função labial normal. A falta de fechamento labial é um fator negativo na respiração bucal e na rotação da mandíbula.

18. Não se esqueça de avaliar o arco inferior e de tratá-lo com expansão, quando for necessário. Os molares inferiores mover-se-ão para fora, para trás e, serão intruídos pela ação do Klöehn aplicado aos primeiros molares superiores.
19. Não tenha pressa de ver o seu efeito.  É preciso tempo para que se possa haver crescimento facial. Se esse crescimento não for violado, a classe II será corrigida à razão de 1 milímetro por ano. Seja paciente.
20. Não descuide de controlar os progressos do tratamento, e mantenha o paciente motivado e seus pais informados. Os pais querem saber como está caminhando o tratamento de seu filho. O paciente poderá estar desanimado por ter chegado ao consultório com uma classe II molar e, a primeira fase de seu tratamento apenas corrigiu a posição dos côndilos, sem nenhuma mudança visível na oclusão. O paciente poderá estar sob uma ação semelhante a de um ativador, que posiciona a mandíbula para a frente, o que é constatado com muita freqüência. Explique o que está ocorrendo.
21. Não abandone o paciente após concluir a primeira fase da correção. Um tipo especial de placa de contenção, para uso somente à noite, nos ajuda a manter o resultado obtido, enquanto esperamos que o crescimento e o desenvolvimento do paciente continuem.

22. Não subestime o valor da tração cervical. Devido à sua simplicidade, muitos ortodontistas estabelecem horários irrisórios para esta fase importante de controle, direcionamento e correção ortopédica. A simplicidade da técnica não exclui nossa responsabilidade e, por isso, não devemos reduzir o valor desta etapa do tratamento interceptador.

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