O ÓXIDO NITROSO E A DESCOBERTA DA ANESTESIA


MIGUEL NEIL BENVENGA



     Em 2004, completaram-se os 160 anos da descoberta da anestesia pelo dentista americano, o DR. HORACE WELLS e, os 100 anos da descoberta da procaina pelo químico e pesquisador alemão, o DR. ALFRED EINHORN, que inaugurou a era da anestesia local.

     A história da anestesia geral pode ser qualificada como gloriosa e trágica. Gloriosa para a humanidade e trágica para os seus precursores, com todo um calvário de intrigas, sofrimento, inveja, injustiças, preconceitos e ignorância.

     O óxido nitroso - ou gás hilariante -, foi descoberto por PRIESTLEY, em 1772 e, durante certo tempo, foi usado no tratamento da tuberculose, de doenças estomacais e depois abandonado.

     Até o advento da anestesia, a extração dentária era feita o mais rapidamente possível, o que resultava, quase sempre, na quebra da coroa, deixando as raízes para trás.

     O gás hilariante e o éter, no século 18 e início do século 19, eram aplicados em exibições, principalmente nas pequenas cidades dos Estados Unidos, pelos chamados "professores de química", com o intuito de demonstrar seus efeitos de animação e, mais raramente, os efeitos intoxicantes do éter.


     Há relatos esporádicos do uso do óxido nitroso como anestésico por inúmeros profissionais da área médica, mas nenhum consistente e reconhecendo-o com a capacidade anestésica e, tampouco, existem trabalhos publicados demonstrando sua importância.

     Em 30 de março de 1842, um médico de Jefferson, Geórgia, DR. CRAWFORD WILLIAM LONG, removeu um tumor do pescoço de um paciente depois que ele inalou éter. Essa narcose se baseou nas "brincadeiras alegres do eter", muito populares na época. Porém, o DR. LONG não reconheceu o significado e a extensão de sua descoberta, deixando de fazer a necessária comunicação à classe médica. 

    Dois anos após, em 1844, um dentista de Hartford, Connecticut, DR. HORACE WELLS, estava presente a uma "festa de gás hilariante" (óxido nitroso), conduzida pelo"professor"GARDNER QUINCY COLTON, um ex-estudante de medicina. Ele notou que um homem que ele conhecia - SAMUEL COOLEY, caixeiro de uma loja - após inalar uma boa quantidade de gás, correu em várias direções pela excitação produzida pela droga e acabou por ferir severamente sua canela.


Em seguida, sentou-se ao lado de WELLS, sem se queixar de qualquer dor no profundo corte que apresentava em sua perna. WELLS imediatamente percebeu a importância do  acontecido. No mesmo dia, pediu a COLTON para levar uma ampola de óxido nitroso ao seu consultório na manhã seguinte, e solicitou a um colega, o DR. JOHN RIGGS, para extrair-lhe o siso superior esquerdo (28), depois de inalar o gás. Desperto da anestesia, WELLS exclamou: "Não senti nada mais do que uma alfinetada. Um nova era para as extrações dentárias chegou".

     WELLS repetiu com sucesso o procedimento em inúmeros casos, mas, quando os amigos e colegas o aconselharam a pedir uma patente ele declarou: "Não. Deixe que seja tão livre quanto o ar".

     Um antigo associado de WELLS, WILLIAM THOMAS GREEN MORTON, que trabalhava em Boston, organizou uma demonstração do gás hilariante para o eminente cirurgião, JOHN COLLINS WARREN, do Massachusetts General Hospital. Nessa experiência houve uma falha na aplicação do gás, uma vez que o DR. WELLS retirou a cápsula de inalação num período de tempo muito curto e o paciente, aparentemente sentiu alguma dor, fato que, tempos depois, foi desmentido por esse mesmo paciente - um estudante de medicina.

     Esse episódio desafortunado foi demasiado para o supersensível WELLS, que jamais se recuperou da zombaria e do desdém resultantes. Daí em diante ele trabalhou fanaticamente no aperfeiçoamento da anestesia com o óxido nitroso, com o éter e com o clorofórmio, não apenas em pacientes, mas também com aplicações em si próprio, até tornar-se dependente desta última droga.

     Exausto e deprimido na batalha pelo completo reconhecimento de sua descoberta - e sob a dependência do clorofórmio - , em circunstâncias infelizes, envolveu-se em um conflito de rua. Foi preso e acabou suicidando-se em Nova Iorque, numa cela de prisão, após narcose com clorofórmio: com uma navalha seccionou a artéria femural, em 24 de fevereiro de 1848 - menos de 4 anos após sua descoberta e com apenas 33 anos de idade.

     MORTON não abandonou a idéia de eliminar a dor desde que tomou conhecimento dos sucessos de WELLS, pois estava presente à demonstração "fracassada" no Hospital de Boston junto com o químico CHARLES THOMAS JACKSON que era tido como a pessoa que lhe recomendou o uso do éter, fato confirmado por RIGGS em 1885. MORTON testou esse agente narcótico, com sucesso, em 30 de setembro de 1846, durante uma extração dentária.

     Diferentemente de WELLS, ele pediu uma patente em parceria com JACKSON. A patente não foi concedida porque, a despeito de todos os aditivos aromáticos adicionados, o seu misterioso letheon foi imediatamente reconhecido como éter.

     Depois de sucessivas experiências, MORTON criou o primeiro aparelho de anestesia, um balão de vidro com uma peça bucal na qual pedaços de esponja saturados com a medicação era colocado na boca para que o paciente a aspirasse. A demonstação perante o DR. WARREN, realizada no hospital de Boston em 16 de outubro de 1846 - que os estudantes de medicina esperavam ser tão divertida como a feita pelo infortunado WELLS - , resultou em completo sucesso: WARREN removeu um tumor do pescoço do paciente, sem que ele emitisse  o usual grito de dor e, depois do silêncio que se seguiu, exclamou: "Cavalheiros, isto não é uma fraude". O jornal Boston Advertiser, através de uma testemunha ocular, H.J. BIGELOW noticiou o acontecido.

     Nesse meio tempo, iniciou-se uma dura batalha sobre a prioridade da descoberta da anestesia entre MORTON e JACKSON e da qual WELLS também tomou parte, embora timidamente, até sua morte. Como resultado disso, MORTON tornou-se um homem pobre, sendo que seus colegas, de modo incompreensível, opuseram-se a ele e aos princípios da narcose. Muitos médicos se juntaram ao movimento contra MORTON, bem como algumas confissões religiosas o amaldiçoaram por ter ousado eliminar "a dor ordenada por Deus"... No dia 15 de julho de 1868, MORTON foi encontrado morto no Central Park de Nova Iorque. O seu oponente, JACKSON, faleceu em 1880, depois de ficar internado em um hospício por vários anos, enquanto que o primeiro a empregar a narcose com éter, o médico CRAWFORD W. LONG morreu em 1878 de paralisia.

    Dezoito anos após a desafortunada demonstração de WELLS com o óxido nitroso, o mesmo COLTON que forneceu o gás e estimulou-o a experimentá-lo, continuou a dar seus espetáculos e sempre contou a história das extrações dentárias sem dor, incluindo-as em seu programa e atraindo hordas de pessoas simplesmente para ter seus dentes extraídos sem dor. Mais tarde, abriu uma instituição em Nova Iorque, que continua florescente até hoje, na qual administrava o gás hilariante, com as extrações executadas pelos seus assistentes.

     COLTON morreu em 1898, aos 85 anos de idade, tendo administrado o óxido nitroso em cerca de 92 mil pessoas, sem qualquer incidente relatado.

     Durante anos travou-se uma batalha judicial entre os precursores da anestesia pela primazia da descoberta. Mas, sem sombra de dúvida, o cirurgião-dentista americano HORACE WELLS foi o autor dessa descoberta histórica.

    A American Dental Association liderou, em 1864, uma campanha pelo reconhecimento da descoberta do DR. WELLS. Seis anos mais tarde, a American Medical Association, em seu congresso em Washington, DC resolveu: "QUE A HONRA DA DESCOBERTA E PRÁTICA DA ANESTESIA ERA DO FALECIDO DR. HORACE WELLS, DE CONNECTICUT".

     Para que alguém seja considerado o verdadeiro descobridor de um método, técnica ou medicamento, três critérios devem ser satisfeitos: 

     1. Deve ser descoberto algo que não seja de conhecimento geral.
     2. Ter consciência de sua importância
     3. A descoberta deve ser comunicada a outros profissionais da área.

     De todos os postulantes da descoberta da anestesia, somente o Dr. HORACE WELLS, satisfez aos três critérios.

     Para avaliar o que a humanidade deve ao DR. WELLS, basta somente imaginar o estado de espírito de um paciente antes de ser submetido a uma extração dentária ou a uma cirurgia sem anestesia.

     Nenhum avanço do conhecimento médico aliviou mais o sofrimento humano do que a anestesia. Essa grande contribuição para a ciência médica foi dada pelo cirurgião-dentista HORACE WELLS, em dezembro de 1844, tornando-o, com todas as honras e méritos, um verdadeiro BENFEITOR DA HUMANIDADE.

     Uma portaria do Conselho Federal de Odontologia - CFO - SEC - 032/2002, reiterou os termos da Lei nº 5.081 de 1966, que regula o exercício da Odontologia no Brasil e reconheceu o direito do cirurgião-dentista de usar a analgesia, desde que comprovadamente habilitado através de um curso de especialização, e frisando que a anestesia geral é atributo do médico especialista em ambiente hospitalar.

     A SEDAÇÃO CONSCIENTE, OU ANALGESIA INALATÓRIA COM O ÓXIDO NITROSO E O OXIGÊNIO, NÃO É ANESTESIA GERAL E NÃO CONTROLA A DOR - que no caso do dentista, é feito pela anestesia local - , agindo somente sobre o comportamento psíquico dos pacientes com odontofobia, ansiedade, aprensão e, nos casos de tratamento prolongado, de urgência ou necessidades especiais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

     1.  HOFFMANN - AXTHELM, W.: History of Dentistry, Quintessence, Chicago, 1981.

     2.  RING,  M.E.: Dentistry - An Ilustrated History, Abradale Press, Harry N. Abrams, Inc. Publishers, 1985.

     3.  LERMAN, S.: Historia de la Odontologia y su Ejercicio Legal. 2ª Edicion Editorial Mundi, Buenos Aires, Argentina, 1964. 

     4.  Cover History. A Tribute To Dr. Horace Wells: 150 Years After His Discovery of Anesthesia. JADA, Vol. 125, December 1994.

      5.  DA SILVA, S. R.: Tratando sem traumas. Rev. APCD,  56:327-336, Set / Out. 2002. 

      6.  Analgesia inalatória. Rev. APCD, 58:218, Mai./Jun. - 2004.     


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