O OBJETIVO VISUAL DO TRATAMENTO ORTODÔNTICO

 

MIGUEL NEIL BENVENGA



     O Objetivo Visual do Tratamento - VTO - é a representação gráfica, ou um desenho cefalométrico que prevê o crescimento facial normal do paciente num período determinado e antecipa sua influência no tratamento, o que permite ao ortodontista individualizar as metas que deseja alcançar para esse mesmo paciente.

     Para que se possa tirar proveito dos períodos de maior crescimento facial é necessário iniciar o tratamento por volta dos 7/8 anos de idade, ou antes se for possível, e esperar as modificações do padrão esqueletal com o uso de dispositivos como a ancoragem extra-oral ou os expansores palatinos.

     O VTO nos dá oportunidade de aproveitar os aspectos benéficos do crescimento e minimizar, na medida do possível, os seus efeitos indesejáveis. 

     A primeira preocupação da análise cefalométrica de Ricketts é a determinação da tipologia facial do paciente. Em seguida, inicia-se a construção do VTO pela colocação de suas Premissas Básicas.

      As premissas básicas para a construção do VTO foram propostas por BENVENGA, em 1987, a partir do que RICKETTS definiu como o Círculo Cibernético, e tem como finalidade orientar o especialista na formulação correta das possibilidades e dos limites que o tratamento das maloclusões dentárias de um dado paciente apresentam.

     A idéia da criação das premissas básicas surgiu das nossas experiências didáticas nos primeiros cursos ministrados sobre a Terapia Bioprogressiva, em que os colegas mostravam muita dificuldade em formular as hipóteses dos efeitos conjugados do crescimento e do tratamento ortodôntico, uma vez que é necessária alguma experiência clínica com a mecânica bioprogressiva para que o ortodontista não coloque objetivos de correção ortopédica e ortodôntica impossíveis de serem alcançados ao longo de uma terapia que, em média, dura de 24 a 30 meses.

     O círculo cibernético nos indica que a primeira preocupação ao traçar o VTO é a modificação esquelética e depois a dentária. Por isso a posição do mento no espaço como resultado do crescimento e do tratamento é o ponto de partida de todo o processo.

     A colocação das premissas deve considerar o tipo facial do paciente, sua idade, o tipo de maloclusão de que é portador, seu sexo, idade, raça, os desvios funcionais e as discrepâncias dentária e cefalométrica. 

Essas considerações levam o ortodontista a fazer as primeiras hipóteses sobre o tratamento do caso em estudo, ou seja, se a discrepância total permite ou não tratar sem extrações dentárias, se há ou não necessidade de alterações ortopédicas etc.

     Todos os componentes das premissas estão relacionados entre si como um elemento cibernético que os realimenta (feedback). Como exemplo podemos tomar a colocação do incisivo central inferior na construção do VTO; essa colocação vai afetar a profundidade da arcada inferior que, por sua vez, muda o seu comprimento e, por conseguinte, a posição do 1º molar.

     As premissas são as balizas do VTO, são seus limites quanto aos resultados que o tratamento ortodôndico poderá atingir. O VTO é para o ortodontista o que a planta é para o engenheiro que constrói um edifício e a pauta musical para o maestro que rege uma orquestra. E não há similar em nossa especialidade método de análise do crescimento facial e planejamento da correção das maloclusões dentárias mais elaborado, sofisticado e seguro do que o VTO criado por RICKETTS.

     Podemos fazer um VTO para um paciente adulto, sem crescimento, somente considerando as transformações que desejamos com a movimentação dentária. 

A representação gráfica desse VTO será de grande valia no cálculo da ancoragem necessária para tratar o caso considerado.

     A determinação das premissas básicas do VTO deve se basear no círculo cibernértico criado por RICKETTS, como mostra a figura abaixo.

 

        

 

     O VTO é a união entre a previsão de crescimento facial normal num período de 2 ou 3 anos com as alterações ortopédicas e ortodôndicas que desejamos produzir com o nosso tratamento, e sua representação gráfica será de grande valia no cálculo da ancoragem necessária e no detalhamento de uma biomecânica específica para tratar o caso. 

     O método manual de traçado do VTO, mesmo com as pequenas imperfeições inerentes, é útil para o nosso trabalho clínico e pode ser feito de dois modos diferentes: no primeiro, faz-se a previsão de crescimento e sobre ela introduzimos as modificações que as premissas básicas determinam.

No segundo, unimos previsão de crescimento facial com o tratamento num processo simultâneo, que não é tão exato como o primeiro, mas tem a vantagem de ser mais prático e fácil de ser aprendido pelos iniciantes.

     As premissas são colocadas através das respostas às seguintes indagações:

    EFEITOS ESPERADOS

                                         a) abre-se ?
    1.EIXO FACIAL              b) fecha-se ?     
                                         c) mantém-se ?

                                          a) diminui ?
    2. CONVEXIDADE           b) aumenta ?  
                                          c) mantém-se ?  

           _                             a) será mesializado ?
    3. 1 - APO                      b) será distalizado ?
                                          c) será mantido ?

                                          a) será inclinado para mesial ?
    4. PLANO OCLUSAL       b) será inclinado para distal ?
                                          c) será mantido ?

                                                              

                                                     a) mesofacial = entre 125º e 130º
    5. ÂNGULO INTERINCISIVO      b) braquifacial = 125º
                                                     c) dolicofacial = 130º

    6. LÁBIO INFERIOR/PLANO ESTÉTICO = depende da posição final dos incisivos centrais superior e inferior    (1/1)      
                                                                                                                

     Entre os vários métodos de construção do VTO, o mais exato é aquele feito pelo programa computadorizado da Rocky Mountain Diagnostic Services, que é um estudo completo a partir de dados do paciente, dos modelos de suas arcadas dentárias e das radiografias da mão, panorâmica e cefalométricas (perfil e frontal).

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

1. RICKETTS, R. M. et al.: Bioprogressive Therapy, Book 1, Rocky Mountain/Orthodontics, U.S.A. 1979.

2. RICKETTS, R. M. et al.: Orthodontic Diagnosis and Planning. Rocky Mountain/Orthodontics, Volumes 1 and 2, U.S.A., 1982.

3. LANGLADE, M.: Terapêutica Ortodôntica, Livraria Editora Santos, tradução de M. N. Benvenga, 3ª edição, SP., 2003.

4. RICKETTS, R. M.: Understanding the VTO: Its Construction and Mechanics for Execution. Volumes 1 and 2, American Institute for

    bioprogressive Education, Scottsdale, AZ. USA, 1999.

5. RICKETTS, R. M.: Orthodontic Treatment in Growing Patient - Volumes 1, 2, 3, and 4, American Institute for Bioprogressive Education,

    Scottsdale, AZ. USA., 1999.

6. GREGORET, J. et al.: Ortodontia e Cirurgia Ortognática, Tradução de M. N. Benvenga, Livraria Editora Santos, SP., 1999.


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