MIGUEL
NEIL BENVENGA
Desde os tempos de
ANGLE1,
no início do século passado, a correção das
maloclusões da classe II, divisão 1ª, não cessou de estimular as idéias
e de
gerar controvérsias na especialidade. Nenhum outro tema provocou maior
impacto na literatura ortodôndica e na sua prática clínica do que o
antagonismo entre os métodos de diagnóstico e correção das classes II,
divisão 1ª, com dispositivos fixos e ortopédico-funcionais. Isso
porque, como informa
VADEN5 ,
estima-se que 65% dos pacientes tratados pelos ortodontistas
são portadores dessa forma de maloclusão dentária.
O mestre Angle legou à especialidade seu aparelho edgewise e um importante conjunto de princípios e metas a serem atingidos durante e depois da correção das displasias dentárias. Suas metas de uma dentição e uma face estéticas, de uma dentadura com boa função e um periodonto sadio, com resultados corretivos estáveis, são válidos e reais hoje como eram há cem anos.
O diagnóstico ortodôntico e as mecânicas corretivas mudaram muito com a criação da Cefalometria por BROADBENT2 e HOFRATH3.
Num período de tempo em torno de trinta anos após sua criação, a Cefalometria modificou a visão do ortodontista sobre o crescimento e o desenvolvimento facial de seus pacientes. A partir da década de quarenta, o diagnóstico das maloclusões passou a considerar as características anatômicas e morfológicas dos pacientes, primeiro passo para que a evolução dos conhecimentos chegasse à previsão de crescimento facial e a mecânica ortodôntica, a seus limites biológicos.
DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DAS CLASSES II, DIVISÃO 1ª
Para se estabelecer um plano de tratamento adequado das
classes II, divisão 1ª, é preciso diagnosticar com precisão os diferentes tipos
que
essa displasia apresenta. As informações para o diagnóstico diferencial
vêm do exame clínico do paciente e, principalmente, da análise
cefalométrica (90%), e levam em conta suas características anatômicas e
sua tipologia facial.
A síntese do diagnóstico diferencial conduz o ortodontista às premissas básicas da construção do V.T.O. - Visualização dos Objetivos do Tratamento -, que é o guia geral de nosso plano de tratamento, incluindo nele a previsão de crescimento facial esperado para o paciente considerado, mais as modificações ortopédicas e dentárias que desejamos obter com a Terapia Bioprogressiva de RICKETTS4.
Em seguida, apresentamos um caso clínico tratado dentro dos princípios acima citados.
DIAGNÓSTICO CLÍNICO Nº 859
Paciente caucasiano, com 10 anos e seis meses de idade
ao início do
tratamento, sem problemas de saúde e portador de uma maloclusão de
classe II, divisão 1ª de Angle, na fase de dentição mista (12 dentes
decíduos
presentes). Ao exame frontal, o paciente apresentava boa simetria facial,
lábios sem cerramento na posição de repouso, deixando visualizar os
incisivos centrais protruídos e um grande diastema entre eles. Seu perfil
era
bastante convexo em razão do acentuado ressalto (overjet) dos
incisivos
superiores, seus lábios eram normais em espessura, o inferior com eversão
e ambos com perda da função labial.
O exame dos modelos iniciais revelou uma ligeira relação
molar bilateral de
classe II, com um overjet de 8 mm e uma sobremordida (overbite)
de 5 mm. A arcada inferior, com molares e caninos decíduos ainda
presentes,
apresentava espaços entre os incisivos permanentes.
DIAGNÓSTICO CEFALOMÉTRICO
A análise cefalométrica revelou um paciente
braquifacial severo (VERT +0,95), com boa estrutura facial e mandíbula bráqui, maxila e mandíbula
com relação normal com a base anterior do crânio e entre si
(convexidade de
+ 2,5 mm) e o perfil labial alterado devido à protrusão dos incisivos superiores,
o que tornou a função labial inadequada.
PREMISSAS BÁSICAS PARA A CONSTRUÇÃO DO V.T.O
Na colocação das premissas básicas, levam-se em
consideração o tipo
facial do paciente e sua maloclusão, a presença ou não de apinhamentos
dentários ou hábitos viciosos e seu potencial de crescimento facial. Em seguida, consideramos as modificações necessárias
ou que ocorrerão em conseqüência do tratamento a ser realizado nas 6 áreas de sobreposição
do cefalograma.
Com o estabelecimento das premissas, passa-se ao desenho do V.T.O e às sobreposições e, a partir delas, definimos a mecânica apropriada para a correção ortodôntica.
OBJETIVOS DO TRATAMENTO MECÂNICO
1. Como o tratamento se iniciou na fase média da dentição mista, os objetivos principais foram o nivelamento de ambas as arcadas e a correção
da sobremordida profunda.
2. Conseguir uma relação de classe I molar e corrigir a displasia sagital conjugando a distalização dos molares superiores e a pequena
mesialização dos inferiores, mais o crescimento facial normal.
3. Término da 1ª fase da correção e contenção dos resultados obtidos.
PLANO FINAL
DE TRATAMENTO MECÂNICO
1. Após um período de contenção e observação de 8 meses, devido
ao atraso na erupção
dos caninos e pré-molares, foi reiniciada a correção
do caso.
2. Com a erupção de todos os dentes permanentes, foram fechados todos os espaços remanescentes, reniveladas as arcadas, sobrecorrigida a
sobremordida e a relação molar de classe I (com elásticos de classe II e sem ancoragem extra-oral).
3. O plano de contenção incluiu a colocação de uma placa de Hawley superior modificada e a colagem de um fio trançado de 0,0215" entre os
caninos inferiores com duração de três anos.
ANÁLISE DOS RESULTADOS
O tratamento ativo teve a duração de 36 meses. As
modificações
cefalométricas foram muito favoráveis, como já havia sido previsto no V.T.G.
para 4 anos, que resultou em uma correção estética e funcional da
classe II,
divisão 1ª , com a mecânica bioprogressiva.
O aspecto facial do paciente modificou-se totalmente e seu perfil facial alcançou o ideal em harmonia e simetria bilateral. Isso porque, com a normalização do overbite e do overjet , seus lábios tiveram a função normalizada, bem como a deglutição, sem qualquer exercício mioterápico.
As fotos feitas em julho de 1996, mostram estabilidade dos resultados obtidos com o tratamento mecânico.
A placa de Hawley superior modificada foi removida há cerca de 18 meses, permanecendo a barra inferior colada por 4 anos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1. ANGLE, E.H Treatment os malocclusion of the teeth. Angle's system. 7. ed. Philadelphia: SS White Dental Mfg. Co. 1907.
2. BROADBENT, B.H. A New X-ray, technique and its application to Orthodontia. Angle Orthodont. v.1.p 45-66,1931.
3. HOFRATH, H.: Die Biedeutung der Roentgenfern und Abstandsaufnahme für die Diagnostik der Kieferanomalien. Fortschr Orthodont, 1:232-48, 1931.
4. RICKETTS, R.M. Bioprogressive therapy as an answer to orthodontic needs. Parts I and II. Am J Orthodont, v.70 p.241-267 and v.70, p.359-397, Sept. and
Oct. 1976.
5. VADEN, J.L. Sequential directional forces treatment: two Class II case reports. Am J Orthod. v.99, p.491-504. June 1991.