A DESCOBERTA DA ANESTESIA LOCAL E SUA EVOLUÇÃO


MIGUEL NEIL BENVENGA

As primeiras tentativas para a eliminação das dores em pacientes com problemas nevrálgicos foram feitas pelos médicos FRANCIS RYND, em 1845, e por SCOT ALEXANDER WOOD, em 1853, com injeções subcutâneas de morfina com a seringa construída por FERGUSON. Porém, WOOD  observou que o alívio da dor foi provocado não pelo  efeito local da droga sobre o tronco nervoso e sim pelo efeito sobre o sistema nervoso central.
 
    A cocaína - um alcalóide originário da América do Sul, extraída das folhas da coca -, foi isolada em 1860 pelo químico ALBERT NIEMANN e empregada como anestésico local em oftalmologia por CARL KOLLER.
 
    Por volta de 1884, numerosos dentistas e médicos americanos começaram a usá-la. 
 
    Logo se descobriu o outro lado do efeito da medicação no tocante à dependência ou ao risco de se tornar um vício perigoso. Como resultado da auto-experiência, muitos médicos e dentistas morreram pelos efeitos nocisos da cocaína e, depois dessas ocorrências trágicas, houve um retorno ao uso do óxido nitroso como droga anestésica geral entre a maioria dos profissionais de saúde americanos.

     Em 1901 o hormônio adrenalina foi isolado pelo pesquisador japonês YOKICHI TAKAMINE, trabalhando nos Estados Unidos e, quase simultaneamente, o americano ALDRICH e o alemão BRAUN tiveram a idéia de misturar esse agente vasoconstritor à solução anestésica da cocaína. Depois do primeiro experimento em si próprio, BRAUN reconheceu que uma nova era se iniciava na anestesia local.

     Em 1904, a adrenalina tornou-se o primeiro hormônio a ser sintetizado pelo químico da Farbwerb Hoechst , FRIEDRICH STOLZ, sob o nome comercial de Suprarenin.

     
Outro grande avanço na direção da nova era da anestesia local foi feito pelo químico alemão ALFRED EINHORN ao desenvolver a procaína, em 1904, substância que revolucionou a prática odontológica em todos os seus procedimentos, bem como na medicina. A procaína também foi fabricada pela Farbwerb Hoechst sob o nome comercial de novocaína, uma droga anestésica associada à adrenalina sintética e, significativamente menos tóxica que a cocaína, sem os riscos da dependência química.

     Quando lançada no mercado, a Novocaína era fornecida em frascos e para injetá-la nos pacientes era preciso transferi-la para uma seringa do tipo Luer. Em 1917, a ampola cilíndrica foi desenvolvida pelo médico americano, R. HARVEY SAMUEL COOK, quando integrava a equipe de cirurgiões durante a I Guerra Mundial. Seu autor denominou-a carpule , isto é, união das palavras cartridge (cartucho) e ampule (ampola), à imagem e semelhança do princípio do cartucho colocado no tambor do revólver e, até hoje usado com a denominação de cartucho Cook. O autor utilizou, para seu invento, tubos de vidro cortados por ele próprio e com os pistões feitos com borracha de apagar.

     Os aperfeiçoamentos na área vieram com o desenvolvimento de drogas anestésicas e vasoconstritoras refinadas, depois da II Guerra Mundial.

     LOFGREN, em 1943, na Suécia, sintetizou a Lidocaína, passando a ser conhecida comercialmente como Xilocaína (Astra Pharmaceuticals), e que se mostrou mais potente e menos alergizante que a procaína. 

Outra vantagem da Lidocaína sobre a procaína é a sua capacidade em promover, rapidamente, um nível anestésico adequado.

     Os anestésicos de 40-50 anos atrás - com uma solução de procaína e adrenalina sintética -, apresentavam um inconveniente sério na sensibilidade de um grande número de pacientes ao vasoconstritor, o que lhes provocava mal-estar, tonturas e desmaios, uma ocorrência muito desagradável e preocupante nos consultório dentários.

     Hoje em dia, com os anestésicos modernos como a Lidocaína, a Mepivacaína, a Prilocaína, a Bupivacaína e a Articaína, com a concentração do vasoconstritor variando entre 1:50.000 e 1:200.000, a ação é rápida e segura. Com eles, desapareceram de nossos consultórios, as tonturas e os desmaios, bem como a necessidade de se colocar os pacientes na famosa "posição de Trendelenburg". 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
 
 
1.  HOFFMANN - AXTHELM W.: History of Dentistry, Quintessence, Chicago, 1981.

2.  RING,  M.E.: Dentistry - An Ilustrated History, Abradale Press, Harry N. Abrams, Inc. Publishers, 1985.
3.  LERMAN, S.: Historia de la Odontologia y su Ejercicio Legal. 2ª Edicion Editorial Mundi, Buenos Aires, Argentina, 1964.
4.  Cover History. A Tribute To Dr. Horace Wells: 150 Years After His Discovery of Anesthesia. JADA, Vol. 125, December 1994.
5.  DA SILVA, S. R.: Tratando sem traumas. Rev. APCD,  56:327-336, Set / Out. 2002.
6.  Analgesia inalatória. Rev. APCD, 58:218, Mai./Jun. - 2004.       

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